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Ensaio P [I]

Eu já te conheço.
Sua voz, seus gestos, as palavras que gosta de usar. Tudo o que compõe o quebra-cabeça da sua figura no meu imaginário.
Eu não te conheço.
Você é novidade; sua voz, seus gestos, as palavras que gosta de usar.
Eu não me lembrava.
Eu não sabia a extensão dos seus ombros, a textura dos seus cabelos, a dimensão do seu olhar, o tamanho da sua boca e quantas bocas têm seus dedos [...]

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Se eu pudesse, apagava da sua memória toda leitura feita na pele alheia; apagava das linhas das suas mãos todos os alfabetos lidos em outros corpos; transformava em vento imperceptível todo cheiro escondido que tenha permanecido em seus registros.

Porque eu não aceito que aquele momento da estrela cadente em seus olhos tenha sido captado por outras retinas. A hora em que suas pupilas estão em festa e quando se recolhem para o repouso. Não aceito que seus braços tenham enlaçado outra pessoa e que outros corpos tenham se aninhado em seu colo [...]

Você é um templo onde só eu posso rezar o seu ofício.


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Você é mina. É de se explorar a sua jazida.

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